Costura

O que a foto de um casaco pode desenrolar

O que uma foto pode causar.

Na semana passada, tivemos acesso ao julgamento de um circo de horrores contra uma mulher, apenas um destes casos e descasos que são diários – e ainda vi pessoas que se preocuparam mais com o termo ou texto jurídico do que propriamente tudo o que foi dito, desmerecendo toda a luta e o que está por trás disso tudo.

Existe este peso em ser mulher, sentimento de raiva e tristeza por tudo o que acontece simplesmente por nascermos mulheres, no quanto somos frequentemente julgadas..
E isso engloba muito a nossa relação com as roupas também..

Com a necessidade de me expressar, veio esta foto, na qual tirei pra um trabalho de alfaiataria e que estava um tempo (exato um mês) perdida nos rascunhos. Na foto, estou vestida com o casaco que costurei sem nada por debaixo dele, porque ele não servia em mim e porque estava sem o manequim e precisava enviar estas fotos para a disciplina da pós.

Questionei o porquê dela não ter sido ainda publicada e me dei conta de que pensei várias vezes antes de posta-la, com medo de parecer sexy, de julgarem vulgar. Sim, esta foto. Pasmem. É ridículo esse pensamento, mas ele veio.

Qual o problema de ser sexy, sensual?! Por que a palavra vulgaridade sempre é associada a mulher?! Por que nossos corpos são sempre tão hiper-sexualizados? Por que ainda tenho esse pensamento, mesmo com toda a trajetória feminista que ando percorrendo de escritos, livros, filmes, documentários, das discussões que tenho com meus pares, por quê diabos ainda tive este pensamento ridículo?

Mesmo com toda essa bagagem, ao ter esse sentimento, de medo de julgamento, só por estar vestindo nada por debaixo do blazer, percebo que é um resquício dos pensamentos do passado. Nós, mulheres, também fomos e somos “ensinadas” a julgar outras mulheres – ainda. Quando era mais jovem, muitas vezes julguei uma ou outra mulher por notar os homens todos a olhando, babando e assediando, e achar que a mulher estava pedindo por isso, apenas por ela vestir saia curta ou decote enorme. Como se o jeito que a mulher se veste, mostra ou deixa de mostrar, justificasse querer chamar a atenção dos homens e ser assediada, e olha, este pensamento não foi embora faz tanto tempo assim. Felizmente eu mudei, graças à existência do feminismo, de entender de onde vêm toda essa cultura machista que estamos inseridas.

No caso da Mariana Ferrer aconteceu algo parecido. Ela foi julgada e humilhada por um homem que mostrava fotos dela, que “afirmava e justificava” ela ter sido estuprada. Pelos gestos e modos que ela estava vestida. E vem de encontro na tecla já bastante batida de que “a culpa é sempre da vítima”. E claro, a conduta dos outros de se silenciarem.

Hoje eu entendo que não há problema em se mostrar, e sim nesta cultura que vivemos, tal cultura do estupro, naqueles que acham que o jeito de vestir é um convite pra desrespeitar – e tantas outras coisas.

Esse tal M E D O que senti, surge junto a outros medos, e infelizmente, medo é convivência diária na vida de tantas mulheres.
Tal medo de aparecer isso ou aquilo, de mostrar demais, medo que impede de ser o que a gente é, de colocar a roupa que tá afim.
é o mesmo medo de escolher roupas que não chamem atenção quando sai sozinha na rua, sendo que afinal nada disso tem a ver com roupas, porque não importa roupa.
é medo de ser assediada, estuprada, pois somos violentadas todo o dia (a cada oito minutos no Brasil) apenas por sermos MULHERES.

Toda esta cultura do estupro precisa acabar. E graças ao feminismo que tudo isto é posto em pauta. Temos raiva, temos revolta. E é urgente parar de passar pano pra pessoa que comete abusos. É urgente educação sexual. É urgente respeito, igualdade.

Quero um mundo onde nós, mulheres, possamos andar na rua como quisermos, sem medo.

E sim, é preciso repetir:
Pare de julgar nossas roupas. Pare de julgar nossas fotos. Pare de justificar. Pare de culpar a vítima. Pare de nos abusar. Pare de nos matar. B A S T A de violência contra a mulher.

Não quero mais sentir medo e vergonha de me mostrar, nunca mais.

Em tempo, segue sugestões de documentários, livros e podcasts interessantes para explorar:

Documentário “The mask you live in”, disponível no Netflix.
Documentário “Precisamos falar com os homens: uma jornada pela igualdade de gênero”, disponível inteiro no YouTube, clicando aqui.
Documentário “O silêncio dos homens”, disponível completo no YouTube, clicando aqui.
O feminismo é para todos, bell hooks.
Grifa Podcast

E você, tem mais alguma sugestão a ver pra indicar? Também já teve pensamentos e medos como o meu? Ou diferentes? Comente, vamos conversar. O mundo precisa de mais diálogo.

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