Costura

O casaco de Amélie

Uma das coisas que eu A-M-O é ler e ver fotos e/ou vídeos sobre processo de costura, e com isso, resolvi fazer um “pequeno” relato (mentira, não tá pequeno nada, eu gosto de escrever) contando sobre os processos de costura do look que desenvolvi para a disciplina de Construção de Figurino da pós, especialização em Modelagem do Vestuário que faço na universidade Feevale. Esta especialização eu iniciei em 2020 (final de fevereiro) e desde então já fiz diversos trabalhos práticos, alguns processos eu postava no meu Instagram (quem me segue lá já deve ter visto – quem não, segue aqui) e este foi o meu último trabalho final das disciplinas práticas (agora vou para o TCC!). E ela foi ministrada por nada mais, nada menos que a minha primeira (e mais amada) professora de costura que tive na vida, a Kátia Costa. A escolha por fazer esta especialização, além do diploma ser importante, claro, foi justo voltar a ser aluna dela.

A foto meio borrada assim mesmo, pra imaginar que estava correndo, roubando o gnomo de jardim.
Olha ele, com a cara de quem diz: “me soltaaa, socorrooo”

Bom, vou começar a novela então:
O trabalho proposto foi escolher um roteiro e trabalhar nele como figurinista. Primeiro ler o script todinho, depois selecionar 3 personagens e criar um board de referências (Um board é um quadro onde colocamos diversas imagens, tecidos, referências pra compor o figurino). Após, fazer um esboço, escolher uma peça pra ser modelada e confeccionada inteira e tirar 3 fotos com o look.

Tem que ter uma foto clássica assim segurando a colher, né

Um dos meus filmes favoritos, e que deu origem à minha saudosa marca de bolsas, Amélie (quer saber mais, lê aqui), foi a escolha para interpretar esta leitura de script. Foi bastante difícil se desprender das memórias que já tenho do filme, assistido incontáveis vezes. Mas certamente foi um trabalho extremamente prazeroso, tendo como mentora a Kátia Costa, pessoa que me inspirou e inspira até hoje nesse maravilhoso mundo da costura.

And finally, here we are at 11:16pm, on August 31st, the event that is going to change Amelie Poulain’ s life …


Por se tratar de um filme situado nos anos 90 (conforme o trecho da cena 20 acima), resolvi revisitar a década, com referências do grunge, que tanto gosto e vivi a maior parte da minha infância, ouvindo músicas e me inspirando nos ícones de estilo, como Kurt Cobain e Alanis Morissette. Desta forma, peguei elementos da década, como xadrez, moletons, jeans e tênis, para realizar o board das personagens. Uma época marcada por roupas amplas e confortáveis, para tentar imaginar e compor os figurinos das personagens Amélie, Nino e Georgette. O look escolhido, claro, foi a da personagem principal: Amélie Poulain. E como forma de manter a referência do filme, fazendo uma releitura, mantive as cores predominantes, como os tons em vermelho, verde e marrom.

It’s dawn at the Gare du Nord. With the garden gnome hidden under her coat, an exhausted Amelie gets off the train and joins the first of the suburban and runs after a man leaving the station. Amelie shakes herself out of her trance and runs after both of them. The man, completely oblivious to all of this, climbs calmly into is car and drives off. We have just enough time to see that he is wearing red trainers which have a white scar on them. Nino rushes to his Solex moped and dashes off in pursuit; Amelie looks on, dumbfounded. In his haste, he bumps into a taxi and loses a saddle bag before disappearing over the horizon.

A primeira leitura do script foi intencionada para grifar as falas de Amélie. Após, reli todo o roteiro e procurei por palavras-chaves de roupas que pudessem descrever as personagens, como vestido, blusa, casaco, etc. Há poucas passagens descrevendo roupas das personagens, mas encontrei duas, em especial, que se destacaram, sendo referidas várias vezes: casaco e bolso. Desta forma, a peça escolhida para ser modelada e confeccionada inteiramente foi o casaco de Amélie, e claro – com bolsos. Seguido de um vestido de flanela xadrez – também com bolsos.

Ao lado, foto da tentativa de criar um esboço para o roteiro. Assim como alguns figurinistas trabalham diretamente na escolha e composição das peças, e outros, sem esboços/desenhos, também tive um processo parecido. Eu precisava olhar o que tinha em meu ateliê para então pensar nas peças, escolhendo os tecidos, materiais e aviamentos. Por isso meu esboço acabou muito diferente do resultado final do figurino, pois até então não havia escolhido os tecidos e materiais que utilizaria. A ideia inicial era fazer algo utilizando moletom e calça, algo mais despojado e confortável. Porém, ao reler novamente o roteiro e conferir os materiais que tinha em meu ateliê, senti necessidade de confeccionar outros tipos de peça, bem diferente das que desenhei.

Por já adquirir alguns bons anos nessa estrada da costura, conseguindo acumular muita coisa, já faz algum tempo que trabalho com a ideia da sustentabilidade, optando por utilizar o que tenho, evitando comprar materiais novos e confeccionando peças que
sejam úteis para usar futuramente
. Sendo assim, trabalhei numa modelagem pensando em minhas próprias medidas e escolhi os tecidos e aviamentos que já tinha em meu ateliê, sendo para o casaco – um veludo marrom, com tecido xadrez vermelho e acetinado verde para o forro – e para o vestido camisa – uma flanela verde.

Aqui: o início dos primeiros traços da modelagem

Para realizar a modelagem do casaco utilizei como base o blazer do livro Modelagem sob Medida vol. 2, da Kátia Costa, realizando alterações nos recortes, na manga e gola, acrescentando bolsos embutidos.

Moldes já cortados
Preparando para riscar o tecido

E aqui, pra vocês verem, que mesmo com anos de experiência, no meio do caminho podemos errar, e qual o problema, né? Todo mundo erra, mesmo os professores.
Quando já estava tudo cortado e unindo as partes todas, é que me dei conta que risquei o recorte lateral das costas erroneamente (eles não se encontraram com o recorte da manga, e ficou muito curvado) e tive que alterar isso no molde e claro, arrumar no centro frente e cortar novo tecido da lateral das costas, pra dar continuidade a costura. Isso se deu, claro, porque eu sou a doida de modelar e já cortar direto no tecido. Se tivesse feito uma peça-piloto (teste) no algodão cru antes, isso tudo seria ajeitado previamente e não perderia tempo no meio do caminho… Mas aí que tá, perder tempo e gastar um monte de tecido algodão cru (que não está barato) ou gastar somente um pouquinho mais de tecido definitivo, eis a questão! Por isso que sou a kamikaze da costura mesmo (risos).

Aqui, a colocação da ombreira, olha que chique (risos). Ombreiras não podem faltar no casaco, né? Ainda mais num inspirado nos anos 90.

De aviamentos, utilizei apenas botões de pressão para o vestido e forrei botões do veludo para o casaco, utilizando o Balancim com suas respectivas matrizes. As máquinas utilizadas foram uma reta Facilita Pro e a overloque Ultralock, ambas domésticas, da marca Singer (viram como é possível costurar com máquinas caseiras portáteis e mais simples?)

Detalhe do botão forrado costurada à mão ❤

Após a confecção do casaco, era preciso uma outra peça: foi então que optei por fazer um vestido cavado, de modelagem ampla em A, com recortes, e claro, bolsos. Utilizei um pedaço de flanela xadrez vermelho e outro de malha bordô canelada. Mas no fim, não gostei da combinação junto do casaco e saí correndo vendo outro tecido para compor o look.

Sorte que tinha um outro tipo de flanela – doação da Luciana Cavalheiro, ela que foi minha aluna de costura e modelagem e hoje minha amiga – agradecimentos especiais pra ti, Lu <3. Então peguei a flanela, vi que tinha bastante tecido, e pensei em fazer mangas, algo diferente daquele outro modelo. A modelagem então foi pensando em uma camisa grande de flanela, mas acinturada com elástico, franzida na barra das mangas, com bolsos aplicados e uma espécie de gola padre.

Aqui o resultado final. O gnomo de jardim não podia faltar, né?

E assim terminou o processo naquela correria dos últimos minutos do segundo tempo.. Reconheço que faltaram várias coisas: passar melhor à ferro, produzir mais as fotos, adicionar mais elementos, que depois de pronto é que tive várias ideias.. mas precisava entregar logo e finalizei assim mesmo.

Agradecimentos mais que especiais à Cristina (que me ajudou na produção) e Leonardo (que tirou as fotos).

Gostou? Me conta aqui se você gosta de ler sobre esses processos todos e perrengues durante as costuras e me conta se tem alguma dúvida sobre algum processo.

Beijo, Carol.

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