reflexões

Moda e pandemia

Confesso ser difícil viver em meio a uma pandemia e ao mesmo tempo divagar sobre a moda e principalmente sobre o seu “futuro”. Mais ainda, sabendo que estamos mal ancorados no maior chefe de governo do Estado que desde o início, pratica desserviços à população negando a complexidade desta terrível doença que assola o mundo todo e que já fez quase 2 milhões de mortos. A pandemia está ajudando a construir um mundo mais empático, em que nos importemos mais com os outros? Creio que não.

Segundo Lipovetsky (2009), durante milênios a sociedade se desenvolveu sem a instabilidade e a efemeridade da moda – o que não quer dizer sem mudança, nem curiosidade – e somente no final da Idade Média o conceito “moda” nasceu e foi reconhecida como um sistema. Considerada um fenômeno social de considerável oscilação, expressão da liberdade dos sujeitos (LIPOVETSKY, 2009), a indústria da moda foi crescendo exponencialmente e principalmente a partir da Revolução Industrial e globalização. Atualmente, quando se questiona o que é moda em uma pergunta coloquial, costuma-se associar às tendências, aos luxuoso desfiles, àqueles espetáculos que ditam e lançam as coleções sazonais de primavera-verão/outono-inverno. O consumismo é incentivado e exacerbado, podendo através de um clique comprar roupas e acessar as tendências do mundo todo. Roupas, por vezes, muito baratas, com etiquetas famosas de várias partes do mundo, mas sua imensa maioria sendo feitas em países subdesenvolvidos, com trabalhadores explorados, em fábricas com péssimas condições de circulação e cuidados. Até quando?

A moda que gosto de trazer e discutir não é sobre o novas roupas e tendências, e sim uma extensão do sujeito, de seu corpo, significando uma linguagem que comunica modos de ser e estar no mundo, que discute sobre nossas identidades, comunidades e culturas e compreende melhor o mundo em que vivemos. 

Em minhas vivências com a área de moda, frequentando cursos e especialização, observo atentamente que a visão de moda, para muitos colegas e até mesmo professores, é trivial e egoísta, em que as pessoas só falam sobre si mesmo, em criar uma grande marca de moda, virar um famoso estilista, ficar rico. Mas se formarmos uma turma inteira designers de moda, como fica o mercado? Há mercado para todos? Por que não vejo os estudantes de moda querendo ser grandes costureiros também? Não é fundamental saber a técnica e não somente a teoria? 

Desta forma, na minha opinião, penso ser urgente recusar a moda do papel fútil e efêmero que é construído no imaginário dos estudantes e enaltecê-la a um importante instrumento de comunicação e cultura. Trazê-la para um patamar mais social, e menos individual.

A meu ver, não cabe mais sustentarmos um sistema de moda altamente competitivo, com mão de obra barata de outros países, com milhares de redes fast-fashion que lançam coleções a cada semana, o que contribui para ser a segunda maior indústria que mais polui no mundo. Também não cabe formarmos designers e especialistas de moda sem bons conhecimentos técnicos de fabricação de uma roupa.

A premissa é um cenário voltado para a sustentabilidade com a promessa de economias solidárias e criativas e o incentivo ao movimento slow fashion, por meio de ações concretas, das quais como exemplo, valorizar o trabalho primordial das costureiras, o resgate da mão de obra artesanal e local, a efetiva redução de impactos no meio-ambiente, e principalmente a importância da educação para um consumo mais consciente integrado com os espaços de ensino (principalmente universidades) com indústrias, empresas e cooperativas. 

Enquanto isso, sigo nesse cenário a continuar batalhando na valorização da cadeia produtiva de moda (principalmente das costureiras) e continuar com meu engajamento e ofício na educação, acreditando e considerando que a moda funciona como um campo em  que é possível, a todo momento, se encontrar, inventar e reinventar.

Referências:
LIPOVETSKY,  Gilles.  O  império  do  efêmero. SP:  Cia  das  Letras,  2009.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.